Christine Prato: "A 1.600 metros de altitude, entendi o tamanho da ciência que fazemos no Brasil"
Farmacêutica magistral, pesquisadora e fundadora da Farmatec, Christine apresentou dois trabalhos orais no AAD 2026, em Denver, e conta o que trouxe na bagagem

Christine Prato participou do congresso anual da American Academy of Dermatology, em Denver, nos Estados Unidos (Arquivo pessoal/divulgação)
Cheguei a Denver com a sensação estranha de quem respira fundo e não enche o pulmão. A cidade fica a mais de 1.600 metros de altitude, e o corpo leva alguns dias para entender que o ar ali é mais rarefeito. Nos primeiros dias, qualquer pressa cobrava o seu preço.
Talvez tenha sido a melhor metáfora para a semana que viria.
O AAD, congresso anual da American Academy of Dermatology, é o maior encontro de dermatologia do mundo. Aconteceu entre os dias 26 e 31 de março, com mais de 275 sessões em paralelo e pesquisadores, médicos e indústria do mundo inteiro reunidos no mesmo lugar.
E eu estava ali não apenas para assistir. Estava para apresentar dois trabalhos orais.
O primeiro, sobre melasma, uma das queixas mais comuns e, ao mesmo tempo, das mais frustrantes do consultório. É uma revisão sistemática reunindo 62 estudos e mais de 3.500 pacientes. A mensagem que levamos foi clara: no melasma, sobretudo no refratário, abordagens integradas superam a monoterapia, e as técnicas de drug delivery somam nos tratamentos. Tratar bem é individualizar, combinar caminhos e nunca abrir mão da fotoproteção.
O segundo trabalho é o que mais mexeu comigo. Apresentei o caso de uma paciente com alopecia areata de sobrancelha que já tinha tentado de tudo, sem resposta, com os tópicos convencionais.
Confesso uma coisa: a sobrancelha é uma área pequena. Mas o que ela representa não é.
Quando alguém perde a sobrancelha, não perde só pelo. Perde a expressão, perde a moldura do rosto, perde a sensação de se reconhecer no espelho.
O ponto de virada do caso não foi trocar o ativo. Foi resolver um problema de entrega. O tofacitinibe tópico costuma falhar não por falta de potência, mas porque não atravessa a barreira da pele. Desenvolvemos, na Farmatec, um gel lipossomado com tofacitinibe a 2% e nanopartículas controladas abaixo de 200 nanômetros, com tamanho e estabilidade validados em equipamento analítico. Pequenas o suficiente para vencer a barreira cutânea e alcançar o folículo.
O resultado: mais de 85% de repilação da sobrancelha em oito semanas, com uma aplicação ao dia, sem efeitos adversos e com manutenção no acompanhamento de três meses.
Foi disso que falei lá em cima, no palco, em inglês.
E foi ali que entendi uma coisa que carrego desde então.
O que levei a Denver não foi sorte nem improviso. Foi o resultado de uma forma de fazer farmácia magistral que venho construindo na Farmatec: processo controlado, validação analítica e tecnologia de entrega de ativos. A mesma régua de exigência de uma indústria, aplicada à medida de uma pessoa de cada vez.
A farmácia magistral não é o oposto da evidência. Bem feita, ela é a evidência aplicada a um paciente específico, naquela pele, naquele momento.
E a dermatologia mundial caminha exatamente para onde a manipulação séria sempre quis chegar: personalização, precisão e formulação pensada caso a caso. A diferença é que agora isso tem nome, tem método e tem palco.
Voltei com a mochila mais pesada de conteúdo do que de souvenir. Anotações sobre minoxidil oral e sublingual, sobre novos caminhos para a alopecia, sobre o que se discute hoje em melasma. Mas a lembrança mais forte não cabe em slide.
É a de que ciência de verdade não tem sotaque.
O que fazemos aqui, em Porto Alegre, com rigor científico e processo controlado, conversa de igual para igual com o que se discute em Denver, em Nova York ou em qualquer outro lugar. Não fomos a Denver pedir licença. Fomos somar.
A altitude que me faltou ar no primeiro dia foi a mesma que, no último, me fez respirar diferente. Não por costume. Por orgulho.
Subi ao palco achando que ia mostrar dois trabalhos. Desci entendendo que estava mostrando uma forma de fazer ciência, brasileira, magistral e evidente, que merece ser vista.
Fica a pergunta que trouxe na bagagem, e que devolvo a você: que ciência estamos dispostos a construir, e a defender, a partir de onde estamos?
*Christine Prato
Farmacêutica magistral e pesquisadora. Proprietária da Farmatec (Porto Alegre/RS)